“À vontade”, de Baden Powell

capa baden powell a vontade

Baden Powell de Aquino (1937 / 2000) tocava a versão moderna da lira de Apolo mas era um discípulo de Dionísio, com frequentes retiros etílicos, e elípticos, dos quais invariavelmente regressava com novas canções. Levou, também, uma vida de errância aristotélica (talvez por influência de nome próprio e apelido), mas a evocação direta da antiguidade clássica fê-la quando, algo cripticamente, revelou ter baseado a escrita dos afro-sambas em modos gregos, aprendidos em aulas com Moacir Santos, genial saxofonista e compositor, autor em 1965 da obra prima “Coisas”. Foi este seu professor, aliás, o responsável pelos arranjos do seu primeiro álbum com repertório coetâneo, “Baden Powell swings with Jimmy Pratt” (Elenco, 1962), em que lhe apontava – face ao ensaiado em “Apresentando Baden Powell e seu violão” (Philips, 1959), por exemplo – um caminho longe do american songbook, do bolero para salão de baile e do primitivismo regionalista então em voga. Mas, debalde, foi precisamente enquanto recriador de efabulações folcloristas que Powell, carcerário no mais famoso sequestro da música popular brasileira, entrou na história do seu país. Na contabilidade do raptor, Vinicius de Moraes, durante os três meses em que trancou Baden no seu apartamento consumiram duas garrafas e meia de uísque Haig por dia e compuseram 25 temas (dos quais não constava, por mero acaso, a “Marcha escocesa” que Powell viria ainda a criar), dando origem a um incremento no preço do malte a nível mundial, presume-se, e a um exemplar índice para a cronologia futura do sincretismo afro-baiano, que incluiu “Consolação”, “O astronauta”, “Candomblé”, “Berimbau”, “Samba da benção”, “Canto de Ossanha”, “Samba em prelúdio” ou “Canto de Iemanjá”. E se parte deste cancioneiro ganharia configuração só em 1966, quando a Forma lançou “Os afro-sambas de Baden e Vinicius”, Powell estreou neste “À vontade” (Elenco, 1963) os quatro primeiros dos acima enunciados. Por isso, numa nítida articulação em que cabe ainda Bach filtrado por Villa-Lobos filtrado por um mulato, trata-se já aqui daquela extática visão da Bahia que superou a própria realidade e da qual Powell – vivendo em Paris ou, parece anedota, em Baden-Baden – até ao fim dos seus dias jamais conseguiu escapar.

disco “À vontade”, de Baden Powell
Soul Jazz / Multidisc, 1963 / reed. 2012

João Santos

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s