“A confissão da leoa”, de Mia Couto

capa mia couto a confissao da leoa

Parece o início de uma história de um tempo passado, de um tempo em que leões e homens e mulheres ora partilhavam territórios ora rivalizavam entre si, algures numa África mítica e distante, exótica e estereotipada. Mas em 2008 o escritor e biólogo Mia Couto integrava uma equipa de expedição de estudos ambientais, ao norte de Moçambique, quando chegaram as notícias dos ataques dos leões, esses “habitantes do mundo invisível onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia”, catalizadores ou espelho daquilo que de mais selvagem existe na natureza humana: “As pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente”. Ao terror insuportável da realidade, Mia Couto escapava escrevendo, febrilmente, criando uma narrativa ficcional sobre a narrativa real, vívida e terrível. Dentro da sua tenda, recriava, sem o saber ainda, as leituras quotidianas e íntimas, misteriosas, dolorosas e cruéis, das gentes da aldeia de Kulumani (Palma, na realidade), regida por “arcaicos mandamentos”, premonições e crenças. Por isso, talvez este não seja mais um romance de realismo mágico ou uma plana alegoria.

livro “A confissão da leoa”, de Mia Couto
Caminho, 2012

 

Paula Pina:
O título ilusoriamente memorialista de “Confissão“ esconde um texto que parece por vezes um ensaio sobre a capacidade de se vencer o preconceito, de se anular o estereótipo e de efetivamente “compreender”, narrativa e poeticamente. Mia Couto concretiza, no ato da escrita, a sublimação e aceitação, assume a proximidade mais chocante e a distância mais serena, através de personagens e situações apenas semi-ficcionadas, anulando, de novo, e sempre, definitivamente, uma e outra e outra vez, a diferença entre ficção e realidade. O medo dos leões desnuda, violentamente, um passado ainda presente, coberto de cicatrizes e de irracionalidade. A história e as tradições milenares africanas, e a condição feminina, em particular, surgem nesta obra, misto de diário e crónica, pelas vozes do caçador mulato, Arcanjo Baleiro, e da luminosíssima e trágica mulher-menina, Mariamar. Educada para a submissão, para o silêncio, para a renúncia, Mariamar escapa, quase miraculosamente, ao analfabetismo, e escreve a sua primeira letra – um “L”, de “leão”. E “ali, caligrafada no papel, a fera se ajoelhava a meus pés”; ali, Mariamar enfrenta-se simultaneamente a si própria e aos outros, homens, detentores de um poder cruel, doentio, injusto. Em 1997, em “A filha da solidão”, um dos “Contos do nascer da terra”, Mia Couto escreveu: “Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos conta, já tinha acontecido. Uns deixam a acontecência emergir, sem medo. Esses são os vivos. Os outros se vão adiando. Sorte a destes últimos se vão a tempo de ressuscitar antes de morrerem”. No ano seguinte, em “Cada homem é uma raça”, podemos ler: “Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara”. Também “A confissão da leoa” é, sobretudo e sempre, a grande voz de escrita da língua portuguesa de Mia Couto, com seu inigualável aroma esculpido, cantado, gritado e dançado da terra de África, que apaixona a cada sílaba, a cada neologismo, a cada partícula de avassaladora e redentora sabedoria, pespontada em epígrafes, oriunda desse tempo sem voz de escrita, que encanta e suspende a respiração leitora. Tecedeiro, de língua e de nações, moçambicana e portuguesa, eis Mia Couto.

 

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