“Parallax”, de Eric Revis’ 11:11, e “The nows”, de Paul Lytton e Nate Wooley

capa eric revis 11 11 parallax

“Parallax” e “The nows” dão nome a dois lançamentos discográficos que em comum têm o facto de serem edições recentes, a editora Clean Feed, a excelência dos artistas que os assinam e a colaboração do grande Ken Vandermark. Contudo, as dissemelhanças entre eles superam aquilo que partilham. “The nows” é mais um projeto em que a dupla de Nate Wooley com Paul Lytton revela que a sua cúmplice telepatia musical não é entrave para a hospitalidade com que acolhem outros músicos e abordagens incomuns. Ao histórico percussionista britânico e ao brilhante trompetista norte-americano juntam-se, na primeira parte do duplo CD, a japonesa Ikue Mori e, na segunda, Ken Vandermark. Estamos perante uma viagem: as primeiras paisagens são marcadas por sonoridades urbanas, mesmo industriais, numa arritmia que, com Ikue Mori, vai adquirindo laivos psicadélicos, menos sólidos. Na sequela da viagem, com Vandermark, os sopros atingem um apogeu selvático, e a respiração – no seu infinito espetro de ritmos – dá prioridade ao vivo e orgânico, opondo-se ao disco de abertura, no qual Ikue vai esculpindo digitalmente a matéria sónica.

capa paul lytton nate wooley the nows

Por seu lado, com o quarteto 11:11, a viagem, conduzida por Eric Revis, leva-nos a territórios consideravelmente distintos. A notoriedade dos músicos torna expectável o caráter excecional do álbum: o baixista e compositor Revis, o pianista Jason Moran, o baterista Nasheet Waits, culminando com Vandermark nos seus saxofones e clarinetes. No entanto, a elevada qualidade de “Parallax” não termina no virtuosismo que agrega: o disco é atravessado por uma linha condutora que oscila continuamente entre uma abordagem relativamente clássica do hard bop, que enaltece e prolonga o peso de um legado, e um atrevimento vanguardista que contesta as fronteiras do free jazz. O cruzamento da erudição da tradição com uma rebeldia atemporal que contraria convencionalismos é tão genuína que compreendemos que, com estes músicos, as duas abordagens não se excluem – são, pelo contrário, intrínsecas e vitais.

disco ”Parallax”, de Eric Revis’ 11:11
Clean Feed / Trem Azul, 2012

disco “The nows”, de Paul Lytton e Nate Woolley
Clean Feed / Trem Azul, 2012

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