“Tropicália lixo lógico”, de Tom Zé

Remanescente praticante do tropicalismo, Tom Zé faz no recentemente parido “Tropicália lixo lógico” uma revisitação dos fundamentos éticos, estéticos, históricos, políticos, sociais e até neurocientíficos do movimento metacultural que, em 1968, firmou, a par de, entre outros, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Torquato Neto, Gal Costa e Os Mutantes (os revolucionários de serviço no mítico “Tropicalia ou panis et circensis”, editado nesse ano). Depois das obras primas “Estudando o samba” (1976), “Estudando o pagode – Na opereta segregamulher e amor” (2005) e do magnífico “Estudando a bossa – Nordeste Plaza” (2008), o músico de Irará, Bahia, erige sobre as origens da Tropicália uma insigne panóplia de mensagens relativas às suas premissas, aos seus rumos e aos seus dogmas, entretendo o seu génio de artesão dos ruídos e das teias semióticas com jogos semânticos, paráfrases metarreferenciais e escombros de melodias em que todas as miscigenações se encontram. Entre o conhecimento puro, sensitivo, da “creche dos analfatóteles” e a lógica de “Aristotes”, que “expulsava todo incréu”, o “lixo lógico” é o conjunto mesclado dessas perceções primeiras que os tropicalistas souberam conjugar com graciosa maestria, pondo em diálogo as raízes mais impolutamente populares e as formas de expressão mais eruditas. Unindo em casamento a fé e o conhecimento, “o duplicado tesouro” juntou toda a “casta divina”, de Vénus e Diana a Chiquinha Gonzaga e Bertolt Brecht. Num álbum patenteado pelas aprilinas participações de Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Emicida, Pélico e Washington, e com os dados da Tropicália lançados – “Tropicalea jacta est” –, Tom Zé evoca os companheiros Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Zé Celso para uma metafórica saída da Idade Média, que percorre, entrementes, o calor da Bahia e as “lagoas de Alagoas”. Construindo e desconstruindo o potencial infinito desta engrenagem simbólica a partir das categorias que estruturou, Tom Zé interroga-se sobre o que ainda pode ser feito atualmente com tanto lixo lógico. E, talvez por isso, conclui que “é hora da segunda vinda” (na queda da derradeira cortina, “Apocalipsom B (O começo no palco do fim)”).

disco “Tropicália lixo lógico”, de Tom Zé
Passarinho, 2012

 

entrevista a Tom Zé [2005]

 

site de Tom Zé

blog de Tom Zé

facebook de Tom Zé

 

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