“Pitanga”, de Mallu

Mallu Magalhães deixou cair o sobrenome e, ao terceiro álbum, assina simplesmente Mallu. “Pitanga” é profundamente fresco, vibrante e rico de tonalidades, como o fruto da pitangueira que cresce no estúdio onde a cantora gravou estas deliciosas canções produzidas por Marcelo Camelo, seu companheiro nas andanças musicais e amorosas. As afinidades com a música de Camelo são muitas. “Pitanga” dialoga de forma muito terna com “Toque dela”, o requintado trabalho a solo do ex-vocalista dos Los Hermanos editado no ano passado, mas confirmando a singularidade de Mallu Magalhães, agora com 19 anos, enquanto autora e multi-instrumentista. Mallu escreveu todos os temas do disco e reforça o seu estatuto de menina dos sete ofícios: toca guitarra, violão, piano, clarinete, bateria, etc… Instrumentos que acompanham a sua voz, cândida na medida certa (“mesmo que um tanto rouca”) e que, a cada palavra, parece dizer a doçura mais consciente da juventude. “Pitanga” é reflexo de um claro processo de crescimento e maturidade, tanto anímica como estética, distante q.b. dos tempos de “Tchubaruba”, que escutámos em 2007. Mallu Magalhães diz que “pode falar qu’eu nem ligo, agora eu sigo o meu nariz”, porque aquilo que tem “de torta”, tem “de feliz”. Diz-se “Velha e louca”, num tema de abertura de rock solarengo a lembrar os Little Joy de Rodrigo Amarante (um dos “hermanos” de Camelo). Mallu é pura e genuína, traduzindo para a sua música doses sensatas da sua intimidade. Sente-se o “toque dele” (de Marcelo Camelo), o “moreno do cabelo enroladinho”, a quem confessa fazer cenas de amor “só para ser tema desse teu compor”. Cantando parcialmente em inglês e em português, Mallu Magalhães faz um “Sambinha bom” com perfil de clássico, notando-se, pela primeira vez no trabalho da cantautora, influências da música popular brasileira e da bossa nova, que consegue conjugar de forma exemplar neste álbum com temas como “In the morning”, em que as notas do piano e da voz de Mallu recordam diversas influências do cancioneiro pop folk norteamericano. A transversalidade musical de “Pitanga” tem em “Lonely” o seu mais singelo momento, com guitarras à la Karen Dalton e clarinetes a lembrar os Balcãs, e culmina com “Cais”, tão onírica e metalizada quanto a música de umas CocoRosie. Ao “coração vulcânico” de Mallu juntam-se os casios, as congas, os chocalhos, os sinos e os ukuleles, numa combinação de texturas, como a da pitanga, que parece confirmar que a autora brasileira atracou neste cais para ficar.

disco “Pitanga”, de Mallu
Sony Music, 2011

 

João Santos:
Tudo em Mallu Magalhães parece impossivelmente anacrónico: e talvez por isso nem surpreenda que, num blues ao abrir este “Pitanga”, cante aos 19 anos “Eu tô ficando velha / Eu tô ficando louca”. Mas essa é precisamente a sua falácia e a sua fidúcia – pois a verdade é que toda a sua produção é antes sobre o sincronismo. E, em partes iguais confessional e ficcional (princípios cuja administração só ela saberá), jamais a sua escrita serviu de forma tão equilibrada esse impulso. Porque sugere um caráter de exceção num domínio em que, já se sabe, a iconografia da música popular dos últimos 50 anos tudo costuma reduzir a sucedâneo.

 

site de Mallu

facebook de Mallu

 

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