“E os hipopótamos cozeram nos seus tanques”, de William S. Burroughs e Jack Kerouac

capa william s burroughs jack kerouac e os hipopotamos cozeram nos seus tanques

Qual é a metáfora do título? Pois bem, nenhuma… Leia-se na página 42: “O barman tinha o rádio ligado. Um locutor estava a falar sobre um incêndio num circo e ouvi-o dizer ‘e os hipopótamos morreram cozidos nos seus tanques’. Deu estes detalhes com a satisfação untuosa caraterística dos locutores da rádio.” Que está, então, em jogo? Pois bem, não tanto a possibilidade de o real se condensar em redenções mais ou menos metafóricas, mas sim a evidência muito crua, porventura sarcástica, de que o real não é um “objeto” acessível, mas sim uma “coisa” que resiste a ser condensada, descrita e escrita. Apetece dizer que, em 1967, em França, escavando a herança de Sigmund Freud, Jacques Lacan diria o mesmo com a sua célebre fórmula “o real é o impossível”. Em todo o caso, tudo isto aconteceu uns bons anos antes, em 1945, e em cenários tipicamente made in U.S.A.. Estamos perante um texto que, com o tempo, adquiriu mesmo o estatuto de símbolo premonitório da Geração Beat que Kerouac e Burroughs iriam afirmar através de “On the road” (1957) e “Naked lunch” (1959), respetivamente, sem esquecer que Allen Ginsberg, com “Howl” (1956), também faz parte desta história. Escrito a duas mãos, com Burroughs e Kerouac alternando capítulos e personagens, os “hipopótamos…” enredam-nos numa lógica mais ou menos policial que funciona, de uma só vez, como uma crónica novaiorquina e o relato (diferido) de um crime cujos protagonistas pertenceram ao círculo privado dos autores. No posfácio, James Grauerholz, executor literário da obra de Burroughs, faz o relato exaustivo do contexto em que tudo aconteceu, de algum modo reforçando a cruel sobrevivência deste texto emblemático (cuja primeira edição apenas surgiu em 2008). Afinal de contas, num verdadeiro processo de resgate dos traumas da sua intimidade, Burroughs e Kerouac estavam também a sistematizar o risco temático e a ousadia formal de todo um capítulo da modernidade literária.

João Lopes

livro “E os hipopótamos cozeram nos seus tanques”, de William S. Burroughs e Jack Kerouac
Quetzal, 2013

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s