“A lista de Schindler”, de Steven Spielberg

capa steven spielberg schindlers list

Num dos extras do dvd de “A lista de Schindler” (1993), agora retomado na edição em blu-ray, Steven Spielberg refere como motivação decisiva para a concretização deste filme a dupla descoberta que envolveu: o reencontro com as memórias do Holocausto acabou por funcionar também como uma viagem muito particular e, por certo, muito íntima do cineasta às suas próprias raízes judaicas. E tanto mais quanto, de então para cá, Spielberg fundou e desenvolveu a Fundação para a História Visual dos Sobreviventes do Holocausto. Um certo lugar comum preconceituoso tende a difamar este filme pela sua “seriedade”, opondo-a à “frivolidade” de uma obra que, desde os tempos heroicos de “Tubarão” (1975), sempre se manteve ligada à linha da frente do entertainment. Importa, uma vez mais, resistir a tal demagogia, desde logo porque a intensidade de qualquer experiência artística, da comédia à tragédia, não se mede pelas aparências do seu “tom”, mas sim pelo labor específico da sua narrativa. Além do mais, só por banal cinismo se pode mascarar o facto de a herança da II Guerra Mundial há muito pesar na trajetória criativa de Spielberg – lembremos apenas o exemplo admirável de “Império do sol” (1987) , cruzando tal herança com as complexidades do universo infantil, tão caras ao autor de “Encontros imediatos do terceiro grau” (1977) e “E.T.” (1982). Rever “A lista de Schindler”, duas décadas passadas sobre o seu primeiro impacto, é um pouco como reler um grande romance clássico: algo das suas matérias e sensações transcendeu as marcas mais imediatas do tempo, conferindo-lhe a vibração de uma narrativa que nos permite reencontrar a energia primordial do ser humano. Há neste filme uma tenacidade humanista que, desgraçadamente, o niilismo triunfante no nosso presente tende a menosprezar. Para mal dos nossos pecados, fará sentido dizer que a importância simbólica e a pertinência política de “A lista de Schindler” se reforçaram com a passagem dos anos. Não esquecer é um trabalho árduo. Lembrar e saber lembrar é ainda mais difícil. E mais essencial.

João Lopes

blu-ray “A lista de Schindler” [“Schindler’s list”], de Steven Spielberg, com Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes,…
Zon, 1993 / 2013

 

texto no Sound + Vision [ 1 ]

texto no Sound + Vision [ 2 ]

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s