“O deus da carnificina”, de Roman Polanski

A adaptação de Roman Polanski da peça teatral de Yasmina Reza com o mesmo título é uma comédia pejada de cinismo, negrume e desafetada clareza, em que o cineasta de “A semente do diabo” escrutina as mais subterrâneas e latentes intenções da condição humana. Tomando como modelo a base dramática do texto, constrói uma narrativa centrada em quatro personagens – dois casais – e num único espaço. Na sequência de um episódio de violência entre duas crianças de 11 anos, os respetivos pais, os Longstreet e os Cowan, reúnem-se para resolver a questão da forma mais pacífica e “adulta” possível. Contudo, o ambiente civilizado cede progressivamente lugar a uma atmosfera de tensão, fundamentalmente convocada por esse espaço – o apartamento de um dos casais e a correspondente sala de estar –, que Polanski satura claustrofobicamente. Caem as barreiras sociais, e o rol de confissões e agressões verbais invade o terreno dos interditos, das falsas moralidades e das crises conjugais e familiares. Estreado em Portugal no final do ano passado, este extraordinário “O deus da carnificina” foi recentemente lançado em formato dvd.

dvd “O deus da carnificina” [“Carnage”], de Roman Polanski, com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly
Sony Pictures Classics / Zon, 2011 / 2012

 

texto no Doodles

João Eduardo Ferreira:
Em “O deus da carnificina”, de Roman Polanski, tudo é mais sério do que parece. Porém, tudo é muito cómico, para não dizer cínico. Como na vida, não podemos levar nada a sério, principalmente o seu lado cómico. Uma grande comédia, em formato cínico, num só ato e para quatro agentes enervados.

João Lopes:
Em boa verdade, quase nada sabemos daquilo que transportamos dentro de nós… Enfim, para não nos martirizarmos com as nossas imperfeições, digamos apenas que no universo de Roman Polanski há sempre uma diferença muito sensível entre aquilo que expomos e aquilo que somos. Ou melhor: muitas vezes expomos aquilo que julgamos (ou dizemos) não ser. Integrando, elegantemente, a teatralidade do texto de Yasmina Reza, Polanski filma este concerto de câmara para quatro personagens solistas como o fim exuberante das ilusões da civilização do bom senso. Christoph Waltz, John C. Reilly, Jodie Foster e Katie Winslet são prodigiosos no prolongamento daquilo que Polanski faz com a câmara: mostrar como tudo é transparente, mesmo o que não queremos ver. texto no Sound + Vision

 

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