“Estilhaços”, de Steve Lacy

Performance de jazz contemporâneo em rasgo de inspirada improvisação coletiva, “Estilhaços” foi o primeiro disco do género gravado ao vivo em Portugal. Assinalável peça pelo seu imenso valor histórico e documental, o álbum é a memória sonora de um quinteto em absoluta fulgurância incendiária na noite de 29 de fevereiro de 1972, no antigo Cinema Monumental, em Lisboa. No âmbito das emissões de “Cinco minutos de jazz” (hoje, o mais antigo programa diário da radiofonia em Portugal), que então celebrava o seu sexto aniversário, José Duarte foi até Paris para convidar o grupo do saxofonista Steve Lacy para uma atuação em Lisboa. Imaculadamente intrépido nas deambulações mais abstratas do sax soprano, Lacy fez do concerto que se ouve em “Estilhaços” uma irrepreensível e tempestuosa exploração dos territórios do free, do avant garde e do pós bop (não fosse o saxofonista herdeiro e discípulo de Thelonious Monk…). Numa teia rítmica de estratos e substratos sonoros, o génio visionário de Lacy dialoga com o sax alto do companheiro de longa data Steve Potts, permitindo-lhe clímaxes tão extremistas quanto progressivos, que parecem, não raras vezes, ascender a um domínio metamusical (atente-se no tema de encerramento, “The highway”). Espaço de experimentação concetual, “Stations” é uma colagem sonora de excertos da emissão do paupérrimo quadro da rádio que então existia em Portugal, capturados em direto com um transistor por Irene Aebi (cara metade do líder do quinteto), que se entrelaçam com natural fluidez com os explosivos devaneios discursivos dos saxofones, do contrabaixo (Kent Carter) e da percussão (Noel McGhie). Eternizando essa oportunidade memorável da partilha com o público nacional de um período especialmente prolífico e paradigmático da carreira de Steve Lacy, o registo audio da atuação no Cinema Monumental teve uma primeira edição em LP ainda em 1972 (pela Sassetti Guilda da Música), e uma prensagem em CD em 1996 (pela Strauss), reeditando-o agora a Clean Feed, pela primeira vez para distribuição fora do país. A qualidade técnica da gravação é o seu calcanhar de Aquiles, mas é também essa subtil debilidade que ajuda a erguer a reputação e a singularidade de “Estilhaços”, testemunho que marca de forma indelével um acontecimento artístico – e político – monumental (como a sala que o acolheu), numa era de hermetismo local a todos os níveis.

disco “Estilhaços”, de Steve Lacy
Clean Feed, 2012

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