“Sentimento” e “Noites brancas”, de Luchino Visconti

Na década que abrira com o superlativo “Belíssima” (“Bellissima”, 1951) para fechar com o igualmente histórico “Rocco e seus irmãos” (“Rocco e i suoi fratelli”, 1960), Luchino Visconti elevou ainda a sua verve autoral a níveis memoráveis nestas duas longas metragens que agora chegam ao mercado português de dvd pela mão atenta e sensível da distribuidora Alambique: “Sentimento” (“Senso”, 1954) e “Noites brancas” (“Le notti bianche”, 1957). O primeiro, tem como cenário Veneza em 1866, ou seja, durante uma das ocupações austríacas de que foi alvo. Resume a história de uma paixão – desprovida de qualquer solidez ou racionalidade – de uma condessa italiana por um oficial austríaco, por quem deita tudo a perder, traindo até o seu país. Por seu lado, “Noites brancas” é uma obra que não é tão citada junto das essenciais de Visconti como é “Sentimento”, mas que não deixa de ser tão ou mais arrebatadora. Extraordinário momento do (neo)realismo viscontiano, testemunha a breve história comum de dois solitários com interesses afetivos que gradualmente vão convergindo – até ao ponto em que se tocam apenas para, de imediato, se afastarem em definitivo. A matéria narrativa parte do conto homónimo escrito na juventude (1848) de Fyodor Dostoyevsky. Os rigorosos desempenhos de Marcello Mastroianni e Maria Schell, a música de Nino Rota e a vibrante fotografia a preto e branco (particularmente enfatizada na versão restaurada que aqui se apresenta) fazem o resto. Continue reading

Tudo o que desejamos para o Natal…

… e para celebrar o 100º aniversário de Spike Jones (14 dezembro 1911 / 1 maio 1965)…

 

“Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, de Jacques Tati

Não há na história da comédia francesa outro autor com o seu estatuto criativo. Jacques Tati é rigorosamente singular na sua perspetiva do absurdo dos nossos quotidianos. Jacques Tati é um génio – e para atingir esse patamar de absoluta exceção chegaram-lhe as cinco únicas longas metragens que realizou num período de quase 25 anos, entre finais dos anos 40 e o início dos anos 70 do século passado. Quatro delas, as quatro primeiras, mereceram recentemente uma cuidada reedição em dvd (com importantes extras, nomeadamente algumas das suas mais espantosas curtas metragens) e terão, entre hoje e a próxima terça feira, direito a algumas sessões em grande formato no lisboeta Espaço Nimas. Chamam-se “Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, e – na sala de cinema ou em casa – são um dos mais maravilhosos presentes que a Atalanta nos poderia oferecer neste Natal. Continue reading

“O miúdo da bicicleta”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne


Este “O miúdo da bicicleta” é uma assinalável tour de force dramática de Thomas Doret, na pele de um rapaz de 11 anos em desesperada luta interior por garantir uma proximidade constante dos dois símbolos absolutos da sua segurança emocional: a sua bicicleta e o seu pai. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne reforçam as idiossincrasias da sua abordagem realista às histórias que escolhem filmar, trabalhando novamente – mas sempre como se fosse a primeira vez – em redor de uma criança inadaptada capaz de conter em si tanto do nervo e da energia da sociedade que habitamos. Continue reading

“How do you do”, de Mayer Hawthorne

Meia dúzia de meses volvidos sobre a edição – exclusivamente digital e gratuita – do EP de versões “Impressions”, o norteamericano Mayer Hawthorne publica este que é efetivamente o seu segundo álbum de estúdio, rigoroso compromisso entre o tom ritmicamente mais sólido desse mini álbum e o requinte melódico que nos conquistou em “A strange arrangement” (Stones Throw, 2009). “How do you do” é o comprovativo de que essa sua estreia longa foi bem mais do que uma feliz sucessão de clássicos instantâneos que nos remetiam as emoções e os sentidos para os dias de ouro da Motown, ou que o seu talento enquanto compositor, arranjador, multi-instrumentista e cantor se sustenta num fôlego que lhe garante o estatuto de rei incontestado da blue eyed soul atual. Fosse a indústria musical um jogo limpo e discos como este propagar-se-iam como um vírus benigno no coração de todos os que almejam extrair parcelas iguais de arte e de entertenimento das canções que ouvem. Um dueto superlativo com o “crooner” Snoop Dogg e outras 11 músicas igualmente extraordinárias agrupam-se em pouco menos de 40 minutos, dose mais do que suficiente para fazer deste um dos mais simples álbuns de audição essencial deste ano que agora finda. Continue reading

“Offside – Fora de jogo” e “Isto não é um filme”, de Jafar Panahi

Teve um par de filmes discretamente estreados em Portugal no início da década passada, mas podemos afirmar que a obra e biografia recente do singular realizador iraniano Jafar Panahi só chegou com o devido impacto a um público cinéfilo português realmente atento tardiamente (há um par de meses) e, de certa forma, pelos motivos “errados”. Todo o processo que conduziu à sua condenação a seis anos de prisão e a 20 anos sem poder filmar, pelas crescentes inconveniências políticas que contaminavam a sua filmografia, gerou uma onda de indignação e empatia de diversos setores da sociedade e, em particular, das áreas de influência do cinema e dos direitos humanos. Agora, graças à distribuidora Alambique, faz-se um pouco de justiça – pelo menos ao trabalho de Panahi – ao serem viabilizadas as estreias e o lançamento em dvd de “Isto não é um filme” (2010) e da sua longa metragem de 2006, “Offside – Fora de jogo”. Enquanto aguardava em prisão domiciliária pela confirmação da sua sentença, e na impossibilidade legal de filmar, convidou o amigo e colega de profissão Mojtaba Mirtahmasb para rodar no seu apartamento um documento cinematográfico que nasce de uma perspetiva específica dessa clausura, que não deixa de conter um misto de ironia, provocação e profunda reflexão em redor do drama que vive. O genérico final nomeia o resultado da aventura: “Isto não é um filme”, seguido de “Uma tentativa de Jafar Panahi & Mojtaba Mirtahmasb” (“An effort by…”) e de um “Dedicado aos cineastas iranianos”. Um capítulo único na história do cinema e da sociedade contemporânea. Para compreender um pouco melhor os motivos que conduziram a este escandaloso desfecho, torna-se igualmente importante conhecer “Offside – Fora de jogo”, ficção construída a partir das elaboradas estratégias que um número cada vez maior de mulheres tem que adotar para conseguir assistir a jogos de futebol nos estádios do Irão (onde o seu acesso é interdito). Duas obras vitais para a sétima arte de vocação mais livre e política da atualidade. Como é cantado na música que se ouve a fechar “Offside – Fora de jogo”, “Oh Irão, nosso país precioso / A  tua terra é a nascente da arte…”  Continue reading

“Poesia completa”, de Manoel de Barros


Coletânea organizada cronologicamente, desde o seu primeiro livro publicado, “Poemas concebidos sem pecado” (1937), até “Menino do mato” (2010), passando por obras centrais da sua escrita, como “Compêndio para uso dos pássaros” (1960) ou “Gramática expositiva do chão” (1966), e incluindo a poesia para crianças que escreveu na última década e meia. O título “Poesia completa” é algo falacioso – não se apresenta aqui a integral da sua produção poética, ainda que a seleção seja assinalavelmente extensa e que todos os livros estejam (em maiores ou menores parcelas) aqui contidos. Mas o título “Poesia completa” é também muito verdadeiro – porque, nas suas equlibradas doses de surrealismo e realismo, as palavras de Manoel de Barros são completas como muito poucas que a língua portuguesa praticou neste último século. Ou seja, um título bem adequado à poesia de quem resumiu que “90% do que escrevo é invenção. Só 10% é mentira”. Manoel de Barros, um dos nomes decisivos do século XX literário brasileiro, nasceu em 19 de dezembro de 1916. Celebra hoje o seu 95º aniversário. “Atualmente mora em Campo Grande. É advogado, fazendeiro e poeta”, refere a nota biográfica que abre esta edição. É lá e assim que continua a desenhar as suas luminosas palavras sobre a “desutilidade” das coisas mundanas, sobre o que de primitivo ainda pode restar no seu quotidiano. Parabéns, Manoel. Continue reading