Jazz em Agosto 2017

Assim se vai cumprindo o desígnio de liberdade e evolução metafísica da música, quando esta implacavelmente nos subtrai à inquietação e ao fardo dos tempos, e nos impele à aventura da verdade criativa e da aleatoriedade do destino ontológico. Igor Stravinsky estaria por certo com a mente sintonizada no jazz (que há exatamente cem anos assumiu como contigente da sua erudição orquestral, no seminal “Ragtime for 11 instruments”) quando, no outono da sua vida, escreveu que “a música é o melhor meio que temos de digerir o tempo”. É essencialmente uma parcela desse imperativo devir identitário que nos desvela, novamente, o Jazz em Agosto, cuja 34ª anuidade ocorrerá entre os próximos dias 28 de julho e 6 do mês que lhe dá nome – atestar a audácia da improvisação contemporânea como uma odisseia sem fim à vista, desbravar trilhos inauditos de redefinição das práticas instrumentais e perscrutar a expansão dos procedimentos eletrónicos como exponencial plástico por excelência são reforçadas diretrizes programáticas na mais ponderada edição do festival lisboeta na presente década.

Dois recitais condensam o que de inequivocamente mais laudável se viabiliza no corrente programa: a 31 de julho (às 21:30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, em Lisboa, cenário de todos os espetáculos noturnos deste empreendimento), o êxtase orgiástico que jorra no simulacro da erupção e da lava que se homologa, respetivamente, nos sopros do colossal Peter Brötzmann e na pedal steel guitar de Heather Leigh, reinvenção do lancinante e inexaurível ritual pletórico dos álbuns “Ears are filled with wonder” (2016) e “Sex tape”(2017); e, no dia 4 de agosto (21:30), investimento rigorosamente irrefutável, o quinteto que junta a intrépida veterania dos saxofones de Larry Ochs à intangível eloquência e lucidez da inefável trompete de Nate Wooley, dos frondosos contrabaixos de Ken Filiano e Pascal Niggenkemper e da clarividente bateria de Harris Eisenstadt.

Enalteça-se também o escalonamento das apresentações solistas de Niggenkemper (dia 4, às 18:30, no saudoso Auditório 2 do Edifício Sede da Fundação), que se espera tão parcimonioso quanto exímio; e de Julien Desprez (dia 30, mesma hora e local), domador de uma árida, detalhista e cerebral guitarra elétrica – que, um par de horas mais tarde, exibirá os seus dotes simbióticos e expansivos no quadro da Coax Orchestra e do seu insólito plural sónico contrafeito. As evocativas e oblíquas abstrações epistemológicas do trio de David Torn, Tim Berne e Ches Smith (i.e., guitarra, saxofone alto e bateria), no dia 29 às 21:30, e o temerário, convergente e aclamado enamoramento escandinavo da trompetista portuguesa Susana Santos Silva (com Lotte Anker, em saxofone tenor e soprano, Sten Sandell, ao piano, Torbjörn Zetterberg, no contrabaixo, e Jon Fält, como bateria), no dia 1, em igual horário, encerram em si argumentos de sobra para justificar um mais empenhado esforço orçamental.

De resto, inventariam-se virtudes avulsas na adrenalina lenta e inconformista encapsulada nos saxofones de Pedro Sousa e na maquinaria de Pedro Lopes (dia 5 às 18:30, na Nave da agora apelidada Coleção Moderna); no impressionismo assimétrico e resistente do Sudo Quartet (dia 2, 21:30), i.e., Carlos Zíngaro, violino, Joëlle Léandre, contrabaixo, Sebi Tramontana, trombone, e o idiossincrático Paul Lovens, bateria; no vibrante e substantivo arcaboiço telúrico dos Starlite Motel (dia 3, 21:30), ou seja, Jamie Saft, órgão Hammond, Ingebrigt Haker Flaten, baixo elétrico, Kristoffer Alberts, saxofone alto e tenor, e Gard Nilssen, bateria; na sagaz confluência bissexta do coletivo Human Feel (dia 5, 21:30), composto por Jim Black, bateria e eletrónica, Kurt Rosenwinkel, guitarra elétrica, Chris Speed, saxofone tenor e clarinete, e Andrew D’Angelo, saxofone alto e clarinete baixo; e até mesmo nos praticamente estéreis equívocos fusionistas com que Steve Lehman (dia 28, 21:30) e Dave Douglas (dia 6, 21:30) – outrora instruídos e labirínticos autores – irão respetivamente abrir e fechar esta festa estival.

Assim se vai cumprindo o desígnio de liberdade e evolução metafísica da música. Num espaço ímpar. No verão de Lisboa.

Bruno Bènard-Guedes

 

28 julho > 6 agosto
festival Jazz em Agosto 2017
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1221, de 19 julho 2017

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s