“An international report” e “The Midwest school”, de Audio One

capa audio one an international report

Habitar o mapa de pesquisa empírica traçado pela cartografia identitária do labor de Ken Vandermark – o mais rigoroso, exigente e visionário topógrafo do porvir jazzístico do século XXI – é, amiúde, um premente viés sonoro para celebrar e reclamar o nosso destino humanista e, mais ainda, existencialista. Cada nota excogitada pelos seus saxofones ou clarinetes discute a energia imensamente dúctil que a gerou, refletindo a evolução da matéria ética e estética em que assenta e, simultaneamente, organizando mais futuro, i.e., mais futuro passado, futura história, futura memória coletiva. Mas esta é música não constrangida pela memória – na realidade, é uma sua quase permanente inversão. E é precisamente aí que uma outra essência ontológica se manifesta e ecoa…

capa audio one the midwest school

Num só gesto, Ken Vandermark apresentou recentemente ao mundo a sua editora (Audiographic Records), a sua nova orquestra (Audio One) e as respetivas duas entradas inaugurais da sua discografia (“An international report” e “The Midwest school”). Partindo da reconfiguração, neste último título, de meia dúzia de clássicos de quatro agentes nucleares do jazz do Midwest norteamericano (Julius Hemphill, Henry Threadgill, Anthony Braxton e o Art Ensemble of Chicago), revisões nas quais, mais do que uma mera transcrição narrativa, se encena uma ocupação inquisitiva do utópico drama formal que esteve na génese das peças em questão, Ken Vandermark avança, em “An international report”, para o desenvolvimento de repertório próprio, fundado no âmago de um puzzle algo escheriano (não evitando a deslocação semiótica do punk e do funk, sem jamais perder a lisura erudita), em grande medida graças ao intrépido arcabouço do baixo de Nick Macri, que ancora o som ao centro da Terra, com o auxílio luxuoso do sexteto de metais (Mars Williams, Jeb Bishop, Dave Rempis, Josh Berman, Nick Mazzarella e Vandermark) e da bateria de Tim Daisy, enquanto o vibrafone de Jason Adasciewicz tudo faz para o elevar ao cosmos da imaterialidade rítmica.

Bruno Bènard-Guedes

discos “An international report” e “The Midwest school”, de Audio One
ambos Audiographic Records / import. Flur, 2014

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1145, de 20 agosto 2014

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s