“Business is bad”, de Karen Mantler

capa karen mantler business is bad

Teoricamente, Karen Mantler alinhava quase todas os predicados para proliferar numa dimensão estelar. Tem uma ascendência genealógica intangível – é filha de Carla Bley e Michael Mantler -, uma editora com um imenso peso simbólico a suportá-la – a ECM -, legitimiza-se num jazz vocal que, apesar de contaminado por uma inconfundível atração desconstrutiva, nunca se afasta demasiado do cânone, e ainda consegue enredar as suas composições num contagiante humor negro, pleno de inteligência e de vitalidade. Não é propriamente uma diva interessada em digladiar-se na linhagem que se estende de Ella Fitzgerald até Norah Jones, mas é um nome que, fosse outro o destino, se garantiria com naturalidade num reconhecimento vagamente equidistante do de Frank Zappa ou Tom Waits, suas tácitas influências. Assinou quatro singularíssimos álbuns entre 1989 e 2000, permitindo-se então a um hiato discográfico que se estendeu até aqui (cruzamo-nos acidentalmente com ela no assombroso “Cuckooland”, de Robert Wyatt, em 2003, e pouco mais…), contingência que tanto agravou o ostracismo que já vinha acumulando. E é exatamente o espírito de Wyatt que parece pairar sobre este contundente, e absolutamente inesperado, quinto longa duração de Karen Mantler. A sua voz criativa mantém-se profundamente original, com acrescida maturidade (tinha 22 anos quando gravou o seu disco de estreia, 33 quando gravou o anterior “Pet project”, mas agora está a dois anos dos 50…), melodicamente impoluta, liricamente capaz da mais elegante e lúcida ironia. Uma obra comprometida com a mundanalidade do nosso quotidiano, ou seja, versada em economia, política, romantismo e surrealismo: conselhos gastronómicos para os mendicantes dos parques urbanos, angústia avulsa decorrente das contas por liquidar, o débil dispositivo fiduciário que a liga ao seu advogado, canções que se escrevem sozinhas, etc. Jazz resgatado a uma espécie inusitada de pop de câmara, mas ainda jazz, inequivocamente jazz, orgulhosamente jazz.

Bruno Bènard-Guedes

disco “Business is bad”, de Karen Mantler
ECM / DistriJazz, 2014

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras nº 1143, de 23 julho 2014

 

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