“Cherchez la femme”, de Made To Break

capa made to break cherchez la femme

Estamos no campo da inquirição e da expansão das possibilidades ontológicas e formais da música enquanto suprema arte abstrata, ou seja, epistemológica súmula de história, sociologia, filosofia, política, economia, ciência, ética, comunicação, espiritualidade e humanismo encenados enquanto matéria sonora criativa. Visionária metodologia composicional – que Ken Vandermark, seu mentor, apelida de “organização modular” -, assente numa dialética que contempla pontos de fuga estratégicos para a improvisação individual desenhados numa pauta que é apenas âncora volúvel e exaurível, escrita para ser aleatoriamente seguida e subvertida, questionando e solucionando a cada momento a ingrata coexistência entre estrutura e especulação sónica. I.e., erudição partiturial numa fértil relação de causa/efeito com o instinto que se espera de músicos com a eloquência de Tim Daisy, Devin Hoff ou Christof Kurzmann. Assim é a obsolescência programada a que o nome do quarteto alude, construindo agora para destruir daqui a pouco, construindo novamente em seguida, ad aeternum. Música em permanente tensão, numa perene iminência de rutura, ou de auto-implosão, de recursos estilísticos reclamados não só ao jazz e seus “estilhaços” (os de Steve Lacy e dos universos em seu redor), mas igualmente a distintas vanguardas da música contemporânea, electrónica, funk ou punk, capaz de resolver qualquer paradoxo, mostrando-se orgulhosamente espectral e espasmódica, experimental e pragmática. Há cerca de um ano, dois álbuns na portuguesa Clean Feed (“Provoke” e “Lacerba”, indeléveis memórias das seminais sessões registadas no palco do lisboeta Teatro do Bairro) anunciavam a riquíssima declaração de intenções sustentada pelo ensemble. “Cherchez la femme” confirma-se agora como seu mais esclarecido desenvolvimento. Ou seja, Made To Break como um exímio “ready made” de jazz livre e, simultaneamente, um seu esplendoroso oposto.

Bruno Bènard-Guedes

disco “Cherchez la femme”, de Made To Break
Trost / import. Trem Azul, 2014

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras nº 1139, de 28 maio 2014

 

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