“O varandim seguido de Ocaso em Carvangel”, de Mário de Carvalho

Depois da publicação, no último ano e meio, de uma coletânea de contos (“O homem do turbante verde e outras histórias”), um “cronovelema” (“Quando o diabo reza”) e uma peça de teatro (“Não há vozes, não há prantos”), Mário de Carvalho regressa com duas breves novelas que patenteiam, mais uma vez, a excelência da sua vitalidade literária. Situadas em tempos históricos e espaços ficcionados, as narrativas de “O varandim” e de “Ocaso em Carvangel” vagueiam pelo insólito das intemporais desventuras do real, com o escritor a versar sobre desencontros amorosos, infundadas guerras político-religiosas e o ávido espetáculo da crueldade que tanto deleita o homem. Entre o grão-ducado da Svidânia e a cidade portuária de Carvangel, chibateiam-se anarquistas, ameaçam-se jesuítas, executam-se condenados por crimes de lesa-majestade, tomam-se pescadores numa ardente carnificina e, numa pacata casa de família, assiste-se ao desfilar da morte com a mais serena das tranquilidades. “Diga lá, barão, há quanto tempo é que não emparedamos alguém?” é apenas um dos viscerais gritos que ressoam nesta “opereta com ecos de tragédia”, ironia e sarcasmo, escrita do princípio ao fim com a arguta imprevisibilidade que singulariza o texto de Mário de Carvalho. “O varandim seguido de Ocaso em Carvangel”, o seu primeiro livro com a chancela da Porto Editora (que se dedicará, a partir do próximo ano, a reeditar toda a sua obra), apresenta-se como um extraordinário exemplo da multifacetada arte narrativa do autor, mas fundamentalmente como um arquétipo da sua inigualável prosa. A destreza estilística e a eloquência vocabular de Mário de Carvalho, extremadas, na sua suma riqueza, neste recentíssimo título, reforçam-nos a noção de estarmos perante um prosador ímpar na contemporaneidade da nossa língua.

livro “O varandim seguido de Ocaso em Carvangel”, de Mário de Carvalho
Porto Editora, 2012

 

João Eduardo Ferreira:
Ler Mário de Carvalho é ler contra o tempo, é encontrar o sentido dentro de nós, levantando as palavras como se de pedras se tratassem. Lê-se de um fôlego, embora lentamente. Em particular, as duas novelas que compõem o presente livro. Por aqui, não se escuta o motor dos automóveis que aceleram. Talvez se vislumbre o vapor dos navios que teimam em não aparecer. Mas não faz mal, o horizonte enche-se de substantivos e partículas adjetivantes muito antigas ou mais do que recentes, num ato de amor à leitura e de entusiasmo perante o delírio da imaginação. O nome próprio é dono e senhor da política, da geografia e da zoologia de Svidânia e Carvangel, não sendo permitido, por limitada, usar aqui a palavra “surrealismo”. Atenção ao roçagar dos vestidos, ao cheiro acre dos preparados explosivos, ao código colorido das rosas. Mais atenção ainda ao movimento dos espiões e anarquistas, dos mabecos e grifos. Tudo conspira ou alicia. Tudo toca maravilhosamente os bem ditos séculos pretéritos (o dos ricos e românticos, claro!). Uma maravilhosa cláusula sobre o sinal educativo da pena capital e da volatilidade do segredo de estado. A cor única da ópera e do caráter musical da palavra, lembrando “La nave va” de Federico Fellini.

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