“Blue as an orange”, de Pierre Bastien

capa pierre bastien blue as an orange

Prodigioso dom, este de ser concomitantemente agreste e idílico, desassossegado e enlevado, labiríntico e naïf, abstrato e minudente, opimo e espartano, hodierno e melancólico, inusitado e lúdico, mecânico e humanista. Induzido pelo poema surrealista de 1929 de Paul Éluard “La terre est bleue” (cujas linhas introdutórias esclarecem que “La terre est bleue comme une orange / Jamais une erreur les mots ne mentent pas / Ils ne vous donnent plus à chanter”), o egrégio compositor e artífice musical Pierre Bastien transporta-se para além da barreira dos 60 anos de vida e 40 de obra criativa com este aprilino simulacro de futuro sónico, poesia metronómica da mais alta estirpe vanguardista, na qual musique concrète se hibridiza com uma metalinguagem jazzística e eletrónica informada tanto em Scott Joplin como em Leyland Kirby, mas também em trâmites inerentes a momentos específicos do léxico de visionários como Henry Cowell, George Gershwin, Spike Jones, Sun Ra, Pierre Henry, Jean-Jacques Perrey, Brian Eno, Holger Czukay, Arthur Russell, Jon Hassell, Flanger, Doctor Rockit, Jan Jelinek ou Animal Collective. “Blue as an orange” apresenta discograficamente outra das suas delirantes orquestras autómatas – apelidada Silent Motors, e alicerçada em rodas, engrenagens, um projetor e um ecrã, mas também numa miríade de objetos de improvável vocação sonora, como peças de Meccano, motores, ventoínhas, guizos, papel ou pregos -, sobre cujas proezas rítmicas especula com recurso a instrumentos como trompetes preparados, uma harpa africana kundi, um rebab indonésio, uma sanza (também conhecido como mbira), um cravo elétrico, um baixo, uma bateria e gongos. Máquinas mais humanas do que humanas, com elã percussivo e verve harmónica rigorosamente idiossincráticos, música de “tentativa” e – orgulhosamente – também música de “erro”, resultando numa experiência artística neófila, holística, fascinante.

Bruno Bènard-Guedes

disco “Blue as an orange”, de Pierre Bastien
Morphine / import. Flur, 2015

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1185, de 2 março 2016

 

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