“In the abstract”, de Side A

capa ken vandermark side a in the abstract

No cerne da sua gregária ordem expressionista, “In the abstract” congrega de modo cabal dois dos primados basilares que têm norteado a vitalidade criativa de Ken Vandermark: a contundência da reflexão perscrutadora e a sua respetiva aplicação empírica. Ou seja, o ato de pensar como privilegiado método de trabalho em aberto, espécie de geopolítica jazzística gerida entre um autor e o seu cérebro em constante ação especulativa, através da miríade de projetos que vai viabilizando, das digressões que vai concatenando, dos discos-documentos que vai forjando, da sistematização de ideias que vai legando ao seu site, etc… Ao segundo longa duração (quase três anos depois do “português” “A new margin”, gravado ao vivo em Portalegre e publicado pela lisboeta Clean Feed), o seu trio Side A entrega à história um compêndio que diz mais sobre si e sobre nós e sobre as ligações sensoriais que nos conectam do que aquilo que possamos a uma audição desatenta antecipar: sobejamente orgânico, como um esgaçar obsessivo da matéria com laivos de blues e de free jazz, de swing e de minimalismo, mas também ecos de uma inefável depuração que toca as margens do sonatismo de Beethoven, do pianismo afrocubano ou do post rock de Chicago, num composto resultante das mais distintas influências expostas na escrita democraticamente distribuída pelos três instrumentistas, tudo com uma dose reforçada de introspeção e urgência, romantismo e tensão. Um Vandermark de pulsão particularmente versátil, que imprime a uma assinalável pluralidade de questões e soluções, alia-se ao pianista norueguês Håvard Wiik (membro do quinteto Atomic, bem como dessoutro trio do saxofonista americano que representa igualmente um ónus perante uma análoga via “tradicional” do jazz, os Free Fall), com o seu lirismo melódico e assertividade rítmica, e ao baterista Chad Taylor (motor rítmico das formações Chicago Underground de Rob Mazurek), equilibrando em permanência a erudição experimental com o classicismo harmónico, num programa que nunca esquece ao que vem: arquitetar o futuro desterrando o passado. Será seguramente mais do que uma sintomática coincidência tratar-se do último registo discográfico editado pelo génio de Ken Vandermark antes de atingir o meio século de vida, na próxima segunda feira, dia 22 de setembro.

Bruno Bènard-Guedes

disco “In the abstract”, de Side A
Not Two / import. Flur, 2014

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1147 de 17 setembro 2014

 

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