“Coin Coin, chapter three – River run thee”, de Matana Roberts

capa matana roberts coin coin chapter three

A personagem Coin Coin que Matana Roberts avoca discograficamente pela terceira vez não é somente narradora deste audacioso requiem esclavagista que pretende firmar em 12 postilas, mas também não é necessariamente a encarnação do “sonho febril” (sinopse sua…) que narra – será eventualmente, na intangível materialidade que convoca, uma espécie de seu avatar expressionista. Mais do que contar uma história, aliás, mais do que recontar a história, exige que se questione e se reflita. Estiliza a barbárie histórica numa barbárie estética, redime o colapso da dignidade humana pelo colapso dos dogmas sónicos, expia nossos pecados avitos enquanto espia seus pedaços atávicos que permitirão ao futuro aprender novamente, eternamente, o que não consegue deixar de esquecer com o passado. Dito de outro modo, concebe música – ou, investindo no rigor da nomenclatura, a mais cabal arte sonora e literária e semiótica – de resistência e de liberdade inabaláveis, de inefável e infinita espessura hermenêutica, devir ancestral e atemporal que o porvir que vamos construindo não parece saber ainda entender e integrar plenamente. Talvez já não seja bem jazz, tal como os escravos já não eram bem pessoas. Será jazz perecível à própria dor. Catarse labiríntica e fantasmática que encontra a sua clarividência nas sombras da densa e intensa especulação eletroacústica que se desvela pelas escassas frestas desta desafiante expurgação anímica. Matana Roberts é inexorável na pluralidade de vozes deste singularíssimo solilóquio, ao mesmo tempo em que ergue (sozinha, exatamente…) uma nova cartografia metacultural, metapolítica e metaontológica – reforçando igualmente, com assaz assertividade, o seu estatuto de mais completa e mais complexa criadora do jazz eminentemente definido pelo século XXI. Isto é literalmente história a acontecer – história como matéria de inalienável potencial hologramático. Ou uma crucial revisão, desconstrução e correção da história, para que, por uma vez, ela possa rezar pelos fracos.

Bruno Bènard-Guedes

disco “Coin Coin, chapter three – River run thee”, de Matana Roberts
Constellation / Popstock, 2015

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1164 de 13 maio 2015

 

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