“My way is the spaceways”, de Sun Ra and His Arkestra

capa sun ra my way is the spaceways

Cumpre-se 2014, e ao mito de Sun Ra subtrai-se uma dose consideravelmente assinalável de intangibilidade: “My way is the spaceways” é um indelével tratado lógico-filosófico, enxertado de raciocínio lógico-matemático, capaz de, a um gesto, pela própria voz, comprimir o imponderável drama das premissas éticas e estéticas da sua ontologia criativa. O tomo número quatro da série “Space poetry” – viabilizada pelo musicólogo que dirige o Sun Ra Music Archive, Michael D. Anderson, para a casa editorial Norton Records -, que se sucede aos igualmente prelativos “Strange worlds in my mind”, “The sub-dwellers” e “The outer darkness”, todos publicados em 2010, revela-se uma jornada hipnótica e irredutível pelo dogmático vórtice retórico e conceptual do compositor, ou seja, pelo imanente rol de metáforas transversais à sua obra: Saturno, o cosmos, o universo heliocêntrico, os mundos simbólicos forjados pela alienação e pela fantasia, a música como singular linguagem universal, a vibração espectral das imagens sónicas, a dimensão trágica da consciência social e política, ou a inexorável sabedoria dos códigos científicos e espirituais identificáveis neste planeta que escolheu para seu lar adotivo. Sun Ra cedo se abandonou à realidade terrestre, habitando uma ficção cosmogónica ímpar – mas, alinhado com os astros, não abdicou do privilégio de registar para um futuro idílico a sua exegese, um solilóquio parabólico onde tudo é simultaneamente verdade e mentira, que viajou mudo pelo buraco negro dos tempos, conduzindo-o até à atualidade apenas para lhe dirimir a alteridade. Na miríade de epifanias fonográficas que celebraram neste ano o centenário do nascimento do ser humano que se decifrava por baixo da máscara do deus Ra, só talvez o inusitado programa desconstrutivista de “Other strange worlds” ou a inaudita relevância documental de “Church organ 1948” se conseguem aproximar na eloquência e audácia do fecundo libelo humanista deste disco-discurso.

Bruno Bènard-Guedes

disco “My way is the spaceways”, de Sun Ra and His Arkestra
Norton Records / import. Flur, 2014

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1154 de 24 dezembro 2014

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